Nu, de Botas by Prata Antonio

Nu, de Botas by Prata Antonio

Author:Prata, Antonio
Format: epub
ISBN: 978-85-8086-851-7
Published: 2013-10-25T04:00:00+00:00


A perna do seu Duílio

Era domingo e eu estava extremamente emburrado. Vinha esperando a semana inteira pelo especial de um ano do Bambalalão, com novos quadros, convidados especiais e um minibugue camuflado para o grande vencedor da gincana; aí, quando já tinha até arrumado meu canto do sofá, posicionado as almofadas preferidas, pegado a mantinha de lã e estava indo preparar a xícara com Leite Moça e Nescau, gozando por antecipação as duas horas de paz e glicose, minha mãe chega penteando o cabelo e diz que vamos sair: é aniversário do seu Duílio.

E por acaso eu conhecia algum Duílio?! Ela explicou tratar-se do pai do marido da minha tia, e que naquele dia ele faria aniversário. Eu expliquei que Bambalalão era meu programa predileto e que naquele dia ele também faria aniversário. Minha mãe sentou-se ao meu lado e deu início à inútil tática de instigar meu interesse, a mesma que usava para me convencer a comer coisas verdes e pastosas ou tomar xarope para tosse: “Olha que legal, o seu Duílio vai fazer oitenta anos! Sabe quanto é oitenta? Todos os dedos das duas mãos abertas uma, duas, três, quatro, cinco, seis, sete, oito vezes!”.

O frenético abrir e fechar de dedos podia servir para me fazer um cafuné, se ela quisesse, ou preparar massa de biscoito, mas não ajudaria em nada a me convencer de que conhecer uma pessoa muito velha fosse mais interessante do que assistir à corrida de saco na piscina de bolinhas, o pega-pega de olhos vendados ou ver o vencedor recebendo o Fapinha de pintura camuflada, que eu vinha cobiçando a semana inteira diante da TV.

Reagi, como sempre fazia naquelas ocasiões, elevando meu descaso à última potência. Olhei por cima do seu ombro, mudei de canal com o controle remoto, me esquivei de um carinho. Ao dar-se conta de que não seria enfocando no seu Duílio que conseguiria me ganhar, tentou fisgar meu interesse de outra forma: disse que lá ia estar cheio de crianças da minha idade. Céus, como podia uma pessoa tão inteligente não entender que poucas situações me apavoravam mais do que a ameaça de chegar a um lugar novo “cheio de crianças da minha idade”?

Invariavelmente, elas já se conheciam e recebiam este intruso com a hospitalidade reservada aos forasteiros em filmes de Velho Oeste. Se íamos brincar de esconde-esconde, elas sabiam os melhores lugares para se enfiar, e tinha sempre um mais velho que salvava o mundo vez após outra e eu acabava eternizado na condição de pegador. Uma hora alguém aparecia com uma bola, gritava “bobinho!”, quando eu ia ver já estava no meio de um círculo, correndo de um lado pro outro, sem ar e com um nó na garganta, ouvindo “olé!”. Isso quando o desconforto ficava só dentro da legalidade, pois não eram raros delinquentes que brincavam perigosamente com estilingues, me apontavam espingardinhas de chumbo ou zarabatanas e me obrigavam a pegar brigadeiros para todo mundo.

Muito injusto. Tinha me comportado a semana inteira, passado as tardes na



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